JUBILEU


Ainda não tive ocasião de jogar Jubileu, mas achei que valia a pena colocar as regras no site, para os leitores interessados. Se você se lembra, Jubileu é o jogo preferido de Carlos Seabra e um dos preferidos do Mário Seabra.

Lendo a regra, acho que o leitor não familiarizado com os jogos de vazas pode ter alguma dificuldade no início. Por isso, sugiro começar aprendendo a jogar Copas e Espadas.

A origem do Jubileu é desconhecida. É provável que seus ancestrais remotos sejam o Eucre ou o Skat . Mas o fato concreto que possuímos a respeito dele é que sua introdução no Brasil deveu-se aos padres alemães que se estabeleceram no início do século XX no Seminário Santo Afonso, em Aparecida do Norte.

Muito disputado entre os internos, o Jubileu era o principal divertimento da época das férias, pois grande parte dos seminaristas permanecia no colégio durante esse período. Como o dinheiro era proibido, apostavam santinhos. Os coloridos eram de valor maior que os em branco e preto e havia também os santinhos raros que, para os colecionadores, tinham imenso valor. E foi assim que, através dos padres de Santo Afonso, o Jubileu chegou até nós.

 

O Jubileu é um jogo de trunfos mais complexo que o Eucre porém mais fácil de aprender para quem sabe King, Whist, Bridge e outros jogos de vazas.

Trata-se de um jogo para quatro participantes. Utiliza-se um baralho normal de 52 cartas, sem o Curinga.

O carteador é escolhido pelo sistema de quem tira a menor carta. A distribuição de cartas e o desenvolvimento do jogo obedecem o sentido anti-horário, ou seja, da esquerda para a direita. Assim, o segundo carteador será o jogador à direita de quem foi o primeiro carteador. E assim por diante.

O carteador distribui todas as cartas do baralho - uma de cada vez e fechada -, sendo ele próprio sempre o último a recebê-las. Cada jogador fica, portanto, com 13 cartas. O carteador deve olhar a última carta que recebeu e dizer o seu naipe em voz alta.

Como no Eucre e demais jogos de trunfos, a cada mão existirá um naipe cujas cartas valerão mais do que qualquer outra carta dos naipes restantes. Só há uma exceção - a Meia Miséria -, cujas explicações daremos depois.

A escolha do trunfo no Jubileu se faz num leilão inicial, através de declarações.

 

Declarações

Para cada participante, o objetivo do jogo é cumprir a sua declaração, fazendo o número de vazas previstas em cada uma delas, ou então mais. No leilão, a declaração que predomina sobre todas as outras é a mais alta, ou seja, se um jogador declarar determinado jogo, os outros ou passam ou declaram um jogo maior. Para tanto existe uma hierarquia de valores, que damos em seguida em ordem crescente:

Jubileu: esta é a declaração mínima. O jogador que escolhe Jubileu se compromete a fazer no mínimo 7 vazas e joga com um parceiro.

Assim, se um jogador declarar Jubileu e sua declaração vencer, ele, após anunciar à mesa o naipe de trunfo, ordenará também que seu parceiro seja o portador do Ás de determinado naipe.

Atenção: esse Ás nunca poderá ser o Ás de trunfo.

O parceiro não se identifica imediatamente; só quando o declarante vencedor o ordenar. Isso é feito durante o jogo, quando ele disser: "Espirra" ou "Espirra quando quiser". A essa ordem, o parceiro lança à mesa o Ás escolhido, identificando-se e ganhando aquela vaza, pois o Ás de espirra, ou seja, o Ás chamado à mesa pelo declarante, será a carta mais alta daquela mão, ganhando inclusive do maior trunfo.

Se, porém, o portador desse Ás, lançá-lo à mesa antes do declarante dizer "Espirra" ou "Espirra quando quiser", essa carta terá valor normal, podendo ser cortada por um naipe de trunfo.

Identificado o parceiro, a dupla vai então procurar realizar o número de vazas previsto na declaração. Os outros dois jogadores tentarão, por sua vez, impedir que a declaração seja cumprida.

Jubileu da Última: esta é uma declaração mais alta que o Jubileu simples.

Nesta declaração o jogador se compromete também a fazer 7 vazas, porém o trunfo é sempre o naipe da última carta recebida pelo carteador na distribuição. Por isso é praxe no Jubileu que, antes das declarações se iniciarem, o carteador verifique a última carta recebida e anuncie o naipe aos demais jogadores.

No Jubileu da Última o processo é idêntico ao do Jubileu simples. O declarante escolhe um parceiro pelo Ás de determinado naipe. O parceiro só se identifica quando o declarante disser "Espirra" ou "Espirra quando quiser".

Atenção: quando o declarante disser "Espirra quando quiser", seu parceiro terá que ganhar uma vaza antes de poder jogar o Ás de espirra.

A seguir vem o Solo Sete: nesta declaração o jogador se compromete a realizar sozinho 7 vazas, joga contra os outros três jogadores e escolhe o trunfo.

Segue-se o Solo Sete da Última, no qual o declarante se compromete a fazer 7 vazas sozinho, mas o naipe escolhido deverá ser necessariamente o naipe da última.

Meia Miséria: é uma declaração mais alta que o Solo Sete ou que o Solo Sete da Última. Nesta, o declarante se propões sozinho a fazer apenas uma vaza. Nem mais, nem menos.

Nesta declaração não existe trunfo, mas em contrapartida são aceitáveis duas ou mais declarações. Ou seja: se um jogador anuncia Meia Miséria, outro ou outros jogadores, mesmo já tendo feito sua declaração anteriormente, podem anunciar à mesa que também farão Meia Miséria.

Se dois ou mais jogadores se propuserem essa declaração, isso não significa que eles joguem em dupla ou constituam um time. Ao contrário, continua sendo cada um por si. Apenas seus adversários, como de hábito, vão tentar se esforçar no sentido de fazer com que o declarante ou declarantes não cumpram o prometido.

O Solo Oito tem o mesmo valor da Meia Miséria. Nessa declaração o jogador se propões a fazer oito vazas sozinho.

No Solo Oito da Última o declarante se compromete a fazer 8 vazas sozinho, mas o naipe escolhido deverá ser necessariamente o naipe da última.

Numa declaração, o Solo Oito da Última vence o Solo Oito simples mas, se alguém tiver anunciado anteriormente Meia Miséria, o Solo Oito da Última não pode competir. Isso porque a Meia Miséria, o Solo Oito e o Solo Oito da Última têm valor praticamente equivalente e na declaração prevalece quem se manifestar em primeiro lugar. Quer dizer: se um declarante anunciar "Solo Oito", outro declarante pretendendo fazer Meia Miséria não poderá fazê-lo. Por uma sutil particularidade, apenas o Solo Oito da Última pode se sobrepor ao Solo Oito. Não se sobrepõe porém à Meia Miséria. Ou seja: se alguém declarou Meia Miséria, depois disso nenhum jogador pode declarar Solo Oito da Última.

A seguir vem o Jogo Obrigatório. Nesta declaração, o jogador que receber 3 ou 4 Ases nas 13 cartas distribuídas pelo carteador é obrigado a declarar no mínimo Jogo Obrigatório (mas, se ele o desejar, pode declarar um jogo maior). Esta declaração exige 8 vazas. Embora aparentemente o número de vazas exigido seja o mesmo do Solo Oito e do Solo Oito da Última, o Jogo Obrigatório é superior na hierarquia das declarações ao Solo Oito, Solo Oito da Última e Meia Miséria.

O jogador que declarar Jogo Obrigatório também terá um parceiro. Este será o portador do quarto Ás, ou seja, no caso do declarante possuir Ás de Espadas, Ouros e Copas, o seu parceiro será o portador do Ás de Paus. No caso do declarante ter os quatro Ases, seu parceiro será o portador de um Rei de determinado naipe, à escolha do declarante.

A identificação do parceiro é imediata. O jogador que possuir o quarto Ás (ou, no caso de o declarante ter chamado um Rei, quem tiver o Rei) identifica-se apontando o naipe do trunfo no qual irão jogar aquela mão. Mas atenção: o trunfo escolhido não pode ser o mesmo do quarto Ás ou do Rei, se for este o caso. Assim, se o portador tiver um Ás de Paus, o trunfo não poderá ser Paus, mas qualquer outro à sua escolha.

Quem começa o jogo descartando uma carta é o parceiro que tem o quarto Ás. Em seguida ao Jogo Obrigatório vem o Solo Nove, onde o declarante se propõe fazer sozinho pelo menos 9 vazas. Segue-se o Solo Nove da Última e depois:

Solo Dez

Solo Dez da Última

Miséria: nesta o declarante se propõe fazer nenhuma vaza. Mas ao contrário da Meia Miséria, onde não existe trunfo, na Miséria o trunfo é determinado pelo declarante e naturalmente será aquele no qual ele terá menos cartas ou nenhuma.

Solo Dez, Solo Dez da Última e Miséria têm valor praticamente idêntico, apenas com uma diferença: o Solo Dez da Última vence  uma declaração de Solo Dez. Mas se alguém houver declarado anteriormente Miséria, a declaração de Solo Dez da última não pode ser feita. Se alguém declarar Solo Dez, o declarante seguinte não pode declarar Miséria. No entanto, se alguém declarar Solo Dez, outro declarante pode fazer Solo Dez da Última.

Continuando em ordem crescente:

Solo Onze

Solo Onze da Última

Solo Doze

Solo Doze da Última

Solo Treze

Solo Treze da Última

Miséria Aberta: nesta o declarante se propõe fazer nenhuma vaza e abre suas cartas na mesa, jogando aberto, além de escolher o trunfo.

Miséria Aberta com Colóquio é a declaração mais alta no jogo. Nela, não apenas o declarante se propõe fazer nenhuma vaza e jogar aberto, como os outros três oponentes têm o direito de conversar, manifestando-se a respeito do seu próprio jogo e do jogo do declarante, discutindo a melhor forma de evitar que o declarante cumpra sua declaração.

 

O jogo

Durante o leilão, se um ou mais jogadores considerarem que não têm jogo suficiente para fazer qualquer declaração, podem dizer "eu passo".

Realizadas as declarações, o declarante vencedor anuncia o trunfo e abre a primeira vaza com uma carta qualquer.

 Em seguida, o próximo jogador à sua direita deverá descartar uma carta do mesmo naipe, o mesmo fazendo os jogadores seguintes. Se algum jogador não tiver nenhuma carta de qualquer naipe, inclusive do que é trunfo, mas se tiver cartas do naipe em jogo, é obrigado a descartá-las.

Acredito que houve um erro no parágrafo acima(e agradeço se algum leitor que sabe jogar Jubileu puder ajudar a corrigir). Por hora, sugiro o seguinte no lugar:
"
Os demais jogadores (cada um na sua vez, sempre no sentido anti-horário) são obrigados a seguir o naipe da primeira carta jogada. Um jogador só pode descartar uma carta de outro naipe - ou um trunfo - se não tiver nenhuma carta do naipe de abertura."

As quatro cartas descartadas por cada um dos participantes formam uma vaza, que será ganha pelo jogador que jogou a carta mais alta.

O jogador que ganhar uma vaza recolhe todas as cartas dessa vaza, sem misturá-las com as cartas da mão, e inicia a vaza seguinte jogando uma carta na mesa.

Quando um jogador não tem cartas do naipe em jogo e descarta um trunfo, isso é chamado de "cortar com trunfo", pois qualquer trunfo é maior do que qualquer carta do naipe em jogo. Uma carta de trunfo só perde para um outro trunfo de valor maior.

Quando se joga em parceria, o número de vazas exigido pela declaração é feito pelo declarante, em colaboração com o seu parceiro. Neste caso, os demais jogadores costumam unir-se contra o declarante e seu parceiro, evitando que eles completem o número de vazas convencionado.

Quando um declarante joga sozinho, os três demais unem-se contra ele para evitar que ele realize sua declaração.

 

Contagem de fichas

Quando o declarante realiza sua declaração, recebe de cada jogador um determinado número de fichas, de acordo com o valor de cada uma. Assim, em ordem crescente:

Jubileu - 2 fichas

Jubileu da Última - idem

Solo Sete - 2 fichas

Solo Sete da Última - idem

Solo Oito - 3 fichas

Solo Oito da Última - idem

Meia Miséria - idem

Jogo Obrigatório - idem

Solo nove - 4 fichas

Solo Nove da última - idem

Solo Dez - 5 fichas

Solo Dez da Última - idem

Miséria - idem

Solo Onze - 6 fichas

Solo Onze da Última - idem

Solo Doze - 7 fichas

Solo Doze da Última - idem

Solo Treze - 8 fichas

Solo Treze da Última - idem

Miséria Aberta - 10 fichas

Miséria Aberta com Colóquios - 15 fichas

Quando o declarante faz mais vazas do que o previsto na sua declaração, recebe uma ficha por vaza extra.

Se o declarante joga com um parceiro e ambos conseguem fazer o número de vazas preciso, cada um dos jogadores perdedores paga a um dos vencedores. Se A e B ganham, C paga para A e D paga para B.

Se o declarante não cumprir a declaração, paga aos demais jogadores uma multa correspondente ao número de fichas da sua declaração. Se tiver jogado com um parceiro, este também será perdedor, devendo cada um pagar a um dos outros dois a multa correspondente à sua declaração.

Se o declarante não cumprir a sua declaração por mais de uma vaza, ele (e eventualmente seu parceiro, se a declaração envolver parceria) pagará não apenas a multa como também uma ficha por vaza extra obtida pelos outros jogadores. Se o declarante pediu Solo Nove e fez 7 vazas, pagará a cada um as 4 fichas correspondentes à declaração não cumprida e mais uma ficha. Se o declarante tivesse feito 8 vazas, pagaria somente as 4 fichas.

Como Jubileu é um jogo de contagem de fichas, sugerimos em primeiro lugar que no início do jogo se estabeleça um limite de duração: uma, duas, três ou quantas horas os jogadores concordarem em jogar.

Em segundo lugar é interessante distribuir a cada participante um determinado número de fichas, para que ele possa acompanhar devidamente todos os lances.

 

Texto retirado do volume "Jogos de Cartas" da Coleção Todos os Jogos”.


 

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