ANDRÉ ZATZ FALA À ILHA DO TABULEIRO
As perguntas giram em torno da criação de jogos e do mercado de jogos no Brasil


O Brasil tem hoje poucos especialistas no desenvolvimento de jogos de mesa, ou jogos de tabuleiro. Para muitos uma atividade que pode render algum dinheiro, mas que não permite uma dedicação exclusiva. Ainda assim, felizmente para os apaixonados pelos jogos de tabuleiro, há homens dedicados no desenvolvimento de projetos que serão objeto de desejo. Produtos admirados e manipulados por milhares de pessoas em convívio pessoal. Os jogos de tabuleiro atraem a atenção de crianças e adultos e são recomendados por especialistas como antídotos para o isolamento provocado pela Rede Mundial de Computadores, a Internet.
O Site Ilha do tabuleiro entrevistou um destes especialistas. André Zatz ,se dedica à atividade há mais de 10 anos. É um apaixonado pelos jogos de mesa.

ILHA - Há quanto tempo você desenvolve jogos de tabuleiro ou jogos de mesa?

ZATZ - Nossa atividade ligada ao desenvolvimento de jogos teve início em 1996, portanto há mais de 10 anos.

ILHA - Como você iniciou nesta atividade?

ZATZ - Sergio (Halaban) propôs que desenvolvêssemos um jogo com a intenção de publicá-lo e eu gostei da idéia. Passamos a nos reunir uma noite por semana com essa finalidade. Menos de um ano depois tínhamos em mãos o protótipo do jogo Corrida Presidencial. Vários fatores contribuíram para a publicação: um talento que estava se revelando, uma equipe dedicada e com perfis complementares e uma boa dose de sorte.

ILHA - Quais os principais jogos que você já desenvolveu e para quem foram estes trabalhos?

ZATZ - Temos 30 jogos publicados, por vários fabricantes diferentes. Nosso jogo mais conhecido se chama Floresta Encantada, publicado pela Grow e voltado ao público infantil. Nosso jogo que maior impacto causou entre o público dito “gamer”, isto é, entre aqueles que têm como hobby jogar jogos de tabuleiro, foi o Batalhas Medievais, jogo também publicado pela Grow. Ele é quase uma unanimidade entre os jogadores. Nossa maior realização foi a publicação do jogo Hart an der Grenze pela Kosmos, uma das maiores editoras da Europa. O jogo foi recomendado pelo Spiel des Jahres (o Oscar dos jogos de tabuleiro) e é distribuído em vários países da Europa. Nosso lançamento mais recente (julho de 2007) que vai agradar tanto o público leigo como o público especializado se chama Riquezas do Sultão e está sendo lançado no Brasil pela Estrela. Já temos um contrato para lançamento do jogo na Alemanha, Holanda, Estados Unidos e França, que deve ocorrer em 2008.

ILHA - Há muita gente que trabalha no desenvolvimento de jogos de mesa no Brasil? Quais os principais nomes do Brasil neste ofício?

ZATZ - Não. São poucas pessoas. Quero dizer, há milhares de pessoas que já inventaram um jogo ou que estão tentando inventar um. Mas que trabalhem com isso de maneira regular, há muito poucos. Muito poucos mesmo. Podemos contar nos dedos: Sergio Halaban, Luiz Dal Monte Neto, Milton Célio de Oliveira Filho, Maurício Gibrin, Mauricio Miyaji e Fabiano Onça. Só conheço esses.


ILHA - Na hora em que você está bolando um novo produto, um novo jogo, que característica você empresta ao jogo?

ZATZ - A principal característica que um jogo deve ter para ser bom é ser envolvente. O envolvimento é freqüentemente criado pelo desafio, que pode seguir em muitas direções, de acordo com o tipo de jogo e com o público-alvo: planejamento estratégico, decisões táticas, destreza, criatividade no uso das palavras ou até torcer por um resultado no dado.

ILHA - Os jogos de tabuleiro cumprem a missão de integração social, outra educativa e de agregação familiar? Fale um pouco sobre estas três questões.

ZATZ - Poucas atividades proporcionam uma interação social e humana como os jogos. Ainda mais no mundo atual, onde cada vez mais tempo é gasto diante de um computador ou televisão. Jogar é, por natureza, uma atividade social. Você joga com amigos ou com a família. Enquanto jogo, brinca, bate papo e o próprio desenrolar do jogo gera interações entre as pessoas.
Com relação aos aspectos educativos, diria que além da capacidade de se relacionar com outras pessoas, os jogos ajudam as crianças a aprender a respeitar regras, a ter paciência e a lidar com a frustração da derrota, que é uma das coisas mais difíceis, até para os adultos! Há ainda uma série de habilidades específicas que podem ser mais ou menos exercitadas de acordo com o tipo de jogo: raciocínio, intuição, cálculo, agilidade, percepção, memória, destreza...

ILHA - Quais os principais jogos no mercado brasileiro (mesmo importados) que se adequam a função educacional?

ZATZ - Do meu ponto de vista, quase todos os jogos de mesa contribuem para a formação da criança e do jovem. Basta serem divertidos, pois de outro modo o jogo vai ser deixado de lado! Por sua própria natureza, o jogo é um tipo de lazer rico do ponto de vista do desenvolvimento.

ILHA - O mercado de desenvolvimento de jogos pode pagar bem ao pesquisador e desenvolvedor de produtos?

ZATZ - Sim, pode pagar, mas é muito raro. O homem que na década de 30 inventou o Monopoly (conhecido no Brasil como Banco Imobiliário) ficou rico. Mas você conta nos dedos de uma mão quantas pessoas já enriqueceram por ter inventado um jogo. Geralmente são americanos e inventaram o jogo numa época em que essa indústria estava apenas começando. É mais fácil ganhar dinheiro produzindo ou vendendo jogos do que inventando. O autor do jogo recebe apenas uma pequena parte dos lucros, na forma de direitos autorais. Como as vendas costumam ser pequenas e um novo jogo lançado geralmente não fica no mercado mais do que um ou dois anos, o que sobra para o autor não é muito. Acho que para alguém viver disso, seria preciso ter uns dez jogos publicados por ano, o que é impossível, pelo menos no mercado brasileiro, já que não há tantos lançamentos assim. E torcer para que eles tenham bons resultados e talvez fiquem um pouco mais de tempo no mercado.

ILHA - Se um jovem quiser iniciar-se nesta atividade, o que ele precisa fazer? Qual o treinamento ou formação que será exigida para o bom desempenho na atividade?

ZATZ - Primeiro, arranjar um emprego do qual possa fazer seu meio de vida. De preferência um emprego que não o consuma totalmente, para que possa, nas horas livres, trabalhar em suas criações. Prepare-se para um pouco de frustração, porque a grande maioria dos jogos inventados não chega a ser publicada. Mas alguns chegam, portanto, não é impossível. Com relação à formação, não há treinamento formal na área. Lembrando de alguns dos autores mais conhecidos, há desde doutores em matemática até artistas plásticos, de especialistas em História da Idade Média a juízes de Direito. Naturalmente, cada um deles tem talentos próprios que caracterizam suas criações e que não estão sem relação com sua própria formação.

ILHA - Você acredita no potencial do mercado para jogos de mesa ou tabuleiro?

ZATZ - Eu acredito sim. Estamos apostando nisso, trabalhando para isso. Se o que ocorre no mercado alemão puder se expandir para outros países da Europa, teremos uma nova onda de crescimento no mercado de jogos de tabuleiro nos próximos 10 ou 20 anos, pensando no mercado mundial. No Brasil, essa é uma realidade mais distante. Mas não impossível. Pelo menos acredito que o mercado de nicho tenha um grande potencial para crescer. Lembra que mencionei os “gamers”, aquelas pessoas que jogam regularmente e compram muitos jogos todo ano? Pois é, hoje não há mais do que dois ou três lançamentos por ano que possam interessá-los e às vezes nem isso. Eles acabam importando jogos da Europa ou dos Estados Unidos. Talvez em alguns anos possamos passar a ter de meia dúzia a uma dúzia de bons lançamentos nacionais todos os anos, com tiragens pequenas, mas grande repercussão no nicho.

ILHA - O que você pode dizer a respeito do site www.ilhadotabuleiro.com.br.?

ZATZ - Soube do projeto pelo seu idealizador, o Alessandro Caporal. Gostei muito da idéia. Já existem sites similares em outros países, mas nada em português e, mais ainda, nada adaptado à nossa realidade. Acredito que o site Ilha do Tabuleiro possa prestar um grande serviço à comunidade no que diz respeito à divulgação do hobby e dos próprios jogos. É muito melhor você comprar um jogo depois de já ter lido a respeito, para poder tomar uma decisão mais acertada. E no Brasil, infelizmente as informações sobre jogos e lançamentos na mídia ainda são muito escassas.

 

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