CONQUISTADORES:
EXPLORANDO OS TERRITÓRIOS
Um diálogo entre Átila e o autor


Há detalhes no jogo que não fazem qualquer diferença na partida. Ou fazem? Talvez não para a maioria, mas eles podem interessar a alguns jogadores mais curiosos. Para o autor, que pensou em certos detalhes com cuidado, seja por perfeccionismo, seja por uma diversão pessoal, é sempre um prazer ver a interação de um desses jogadores com os detalhes de seu jogo, que passam despercebidos da grande maioria. O diálogo a seguir retrata um desses raros momentos em que autor e jogador interagiram em torno do que pode uni-los: o jogo. O diálogo ocorreu de fato, por e-mail, entre Átila Pires dos Santos, leitor brasiliense do site Ludomania e André Zatz, responsável pelo Ludomania e um dos autores do jogo dos Conquistadores.

 

ÁTILA: Olá! Antes de tudo, gostaria de parabenizá-los pelo trabalho que vocês têm feito com os jogos, estão 100% de parabéns!!! =) Eu adquiri recentemente o Jogo dos Conquistadores e confesso que fiquei curioso com relação a certos nomes de alguns territórios e quais culturas do mundo real elas deveriam representar, como Portmais (França?) e Madrazon. Vocês poderiam me esclarecer esta dúvida? =) Abraços e obrigado pela atenção!!! =)

O AUTOR: Caro Átila, obrigado pelo elogio. Com relação ao jogo dos Conquistadores, tive um prazer especial ao compor esses nomes. Se você olhar para o tabuleiro como se fosse a Europa (embora sejam mapas bem diferentes) poderá notar que indo da esquerda para a direita, passamos de nomes com raízes inglesas, para raízes alemãs até chegar em raízes árabes. No sul temos raízes ligadas ao espanhol e o italiano. Mas há mais uma coisa. Tentei encontrar em cada uma dessas línguas palavras ligadas aos recursos do jogo: grãos, madeira, gado e minérios. Veja exemplos do resultado:
Irondel - numa posição que lembra a Inglaterra e contendo a palavra "iron", que é ferro em inglês.
Portmais - com sonoridade francesa e as palavras "port" (porto) e "maïs" (milho)
Madrazon - com sonoridade espanhola (pelo menos foi o que tentei) e a palavra "madera" (embora só representada por madra).
E assim por diante. Se achar a brincadeira divertida, agora que te passei as chaves, tente decifrar os outros nomes. Se quiser, me mande e eu digo se foi nisso que eu pensei! Abração.

ÁTILA: Olá! =) Sim, de fato, a primeira coisa que me chamou a atenção no tabuleiro foi o capricho com relação à escolha dos nomes. Somado ao capricho para com os outros detalhes do mapa, fazem com que ele pareça um todo verossímil. Já pensaram em fazer um cenário de RPG baseado nele? Hehe =) De fato, eu havia percebido que vários territórios de fato tinham seus nomes derivados dos recursos que eles produzem, mas eu não consegui encontrar essa ligação para todos ainda. O que eu consegui até agora foi:
Irondel - Como você mencionou: o começo "Iron" (talvez o final venha de "Dell", significando "vale", ou seja, "Vale do Ferro"?)
Eisenburg - "Castelo de Ferro"; este foi o primeiro que eu decifrei =)
Islador - Hm, esse eu não faço idéia? Tem alguma dica pra mim? hehe =)
Portmais - Eu tinha imaginado exatamente o que você falou, hehe =)
Granatos - Talvez esta seja a região italiana que você mencionou (vindo de "grano", grão, certo?). Eu havia percebido a idéia, mas estava imaginando algo mais romano ou grego, talvez fazendo deste território uma versão fictícia do Império Bizantino.
Kornerland - Norueguês para "Terra do Cereal"?
Zaharia - Imagino que este território represente a cultura árabe, mas eu não consegui descobrir o real significado do nome deste território ainda, exceto pelo fato que ele pode ser uma derivação do nome "Zacarias", além de soar como "Sahara" =)
Palovale - Vale da madeira? =)
Sidonia - Esse sempre foi um desafio pra mim desde o começo. Atualmente eu arriscaria algo como a Romênia ou alguma vizinha balcânica dela. Estou chegando perto? =)
Madrazon - Hehe, esse eu nunca ia adivinhar realmente. O final "on" realmente é bem espanhol, mas acho que o resto do nome acabou me fazendo imaginar algo como a "Amazônia", tanto a floresta quanto às amazonas lendárias (e essa última idéia associado pelo começo "Madre", mãe) =)
Genkis, Galma e Aslan - Ok, eu não consegui achar nenhuma referência a "gado" nesses três, mas me parece que a referência é sobre os povos que geralmente vivem em terrenos semelhantes, como os Mongóis (Genkis vem de Gengis Khan?), os Turcos (Aslan sendo leão em Turco) e os beduínos e bérberes (Galma é o nome de uma cidade na Argélia). Não sei estou chegando perto, mas acho que pode ter algo a ver, hehehe =)
(uma observação extra é que tanto "Galma" quanto "Aslan" também aparecem en Nárnia, embora me pareça que se trate de mera coincidência =)  ) Abraços!!! =)

O AUTOR: Muito bom Átila! Não procurei um significado especial em "del". Escolhi pela sonoridade, achei que combinava com uma região ou país.
Sim, Burg também é cidade. E a língua, como você sabe, é o alemão.
A memória já está falhando, mas penso que foi do latim mesmo que tiramos Granatos. Se não me engano, granatos são grãos em latim, ou algo próximo disso. Em Kornland, de novo tinha em mente o alemão. Korn é milho, land é terra. Talvez valha para o norueguês também, visto que é uma língua germânica.
Vamos ver... penso que Zahar tem a ver com ouro em árabe. Seria isso? É uma região de minérios? Já não me lembro. Mas a sonoridade você matou: cultura árabe.
Pois é, Sidonia é difícil mesmo. Mas isto porque usei uma lógica ligeiramente diferente para essa região. Sidon era uma das principais cidades da Fenícia, região correspondente ao Líbano atual. Note que geograficamente a Sidonia está próxima ao que é hoje o Líbano. E o Líbano, era o grande fornecedor de madeira de cedro na Antigüidade. Como você vê, aqui a volta foi mais longa :) Estou gostando da sua análise.
No caso dos três últimos, nem sei se foram tão pensados. Acho que foram nomes sugeridos pela minha irmã, que é escritora, então se guia mais pelo estilo e beleza das palavras. São palavras com sonoridade oriental, talvez tenha a ver com essa cidade na Argélia que você citou... não sei.
Saiba que foi o primeiro a se interessar e decifrar o nome das regiões... pelo menos ninguém nunca antes comentou isso comigo.

ÁTILA: Imagino que se trata de uma coincidência interessante, então =)
Eisenburg foi, por sinal, o primeiro nome a me chamar a atenção. Quando eu comprei o jogo, estava mais curioso sobre a mecânica dele, e não me ocorreu de procurar a respeito dele na internet antes de comprá-lo (realmente comprei no impulso, hehe), realmente eu não esperava muita coisa para o tabuleiro em si (talvez um mapinha legal e bonito com nomes genéricos para os territórios no máximo). Talvez seja por isso que eu me surpreendi com o fato de encontrar muito mais do que eu esperava em Conquistadores =)
Um amigo meu que cursa Letras e se especializou em grego e em latim me disse que, de fato, existe a palavra "Granum" em latim, mas que talvez a palavra soasse mais latina se ela fosse "Granatus", ao passo que a terminação "os" é mais grega (ele citou o exemplo de "Grámatos", que soa parecido com o nome deste território; se não me falha a memória, esta palavra significa "Gramática" em grego). Em todo caso, acho que imaginar este território algo como Bizantino, tanto pelo lado latino quanto pelo grego e ainda mais pela proximidade com a cultura arábica, que tanto Zaharia quanto Galma parecem ter (que ainda seria reforçada pela presença de amazonas em Madrazon, caso esse fosse o caso) =)
Sim, sem dúvida. No caso do norueguês (não sei quanto ao sueco e dinamarquês, mas imagino que sejam semelhantes), Korn se refere a "Cereal" de forma genérica, não necessariamente milho. E como milho, historicamente, só foi levado à Europa depois que os exploradores espanhóis encontraram os astecas e outras civilizações mesoamericanas, provavelmente eles devem plantar trigo em Kornerland, hehe =)
Eu não sabia que "Zahar" tem um significado em árabe, eu conheço muito pouco desta língua (infelizmente), muito legal saber! =D
Hehehe, de fato. Eu cheguei a considerar uma cultura fenícia (eu cheguei a encontrar na internet algumas passagens bíblicas onde "Sidon" é chamada como "Sidônia"), mas acabei descartando por algumas razões: basicamente todas as culturas representadas no tabuleiro são medievais e esse território não tem acesso ao mar (já que os fenícios eram famosos por serem excelentes navegadores). Além do mais, é o mais pobre de todos os territórios do jogo. Isso me fez imaginar um lugar isolado e pouco atrativo para conquistas externas, talvez uma floresta sombria ou coisa assim. E levando em conta a proximidade com Eisenburg (Alemanha) a norte, Zaharia (Arábia) ao sul e possivelmente culturas nômades (mongóis?) não apenas pelo oeste, mas também pelo leste (não representado no mapa), eu imaginei que a região balcânica pudesse ser uma boa opção. Daí, para imaginar que a terminação "nia" tinha algo a ver com a Romênia foi um pulo, hehehe =) Não sei se eu fui muito além e criando coisas onde não havia, mas eu não tenho culpa que os nomes tenham me inspirado a isso, hehe =)
No caso de "Aslan", caso ele tivesse mesmo uma população turca, fico até pensando se esta palavra não seria a equivalente do "Islã" do nosso mundo real em Aslan, Galma e Zaharia =)
Em todo caso, me alegro em ver que embora Conquistadores tenha regras simples (e seja um ótimo jogo sendo simples como é), ele ao mesmo tempo traz recursos para regras mais complicadas. Afinal, me pareceu uma boa sacada ter colocado tipos de recursos produzidos em cada território, já que isso é algo quase transparente no jogo propriamente dito. Bastaria colocar quatro cores diferentes no lugar de recursos que já seria o suficiente para que o mecanismo funcionasse bem; é esse tipo de capricho, assim como aquele com os dos nomes, que me fizeram gostar ainda mais do jogo =). Também achei bem útil a numeração de 2 a 12 em alguns territórios, que é um recurso que só é usado em uma variante das regras, mas que seria muito útil utilizando regras mais complicadas. =)
Hehe, fico muito feliz em ter sido o primeiro! =D  Acho que isso deve ter passado desapercebido pela maioria das pessoas pois esses detalhes não interferem diretamente no jogo. Em minha opinião, entretanto, são esses detalhes que realmente formam o diferencial dele. Vocês já pensaram em dar continuidade a este "mundo" onde se passa o jogo dos Conquistadores? Talvez na área dos RPGs?
A propósito, vocês só fazem playtest dos jogos em desenvolvimento em São Paulo? Não moro em São Paulo, mas adoraria participar disso!!! =D 

 

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