A IMPORTÂNCIA DE JOGAR EM FAMÍLIA
Um
artigo de Sergio Halaban, escrito com a colaboração de André
Zatz

Jogue com seus filhos. Você não vai se arrepender. O jogo, quando bem escolhido, tem a capacidade de reunir gerações diferentes em torno de uma mesma mesa, proporcionando momentos agradáveis e importantes. Além disso é um lazer relativamente barato, divertido e que exercita a mente.
Um aspecto dos jogos tem sido negligenciado. O jogo tem um potencial fantástico para agregar a família.
Observando amigos e parentes, notamos que pais e filhos tendem a se distanciar uns dos outros após certa idade, que coincide com o período da pré-adolescência. Os pais se vêem aliviados por terem um pouco mais de tempo livre para eles e as crianças por seu lado começam a ter atividades próprias e independentes. Mas as crianças continuam ávidas pela atenção dos pais e se ressentem desse afastamento. Com isso, elas começam a atormentar a vida dos pais com pedidos absurdos, demanda de atenção, exigências... Os pais ficam reclamando disso, que têm que carregar os filhos de lá para cá e que os filhos não dão retorno.
O encontro que poderia haver no momento de lazer, acaba não se fazendo. A programação de TV de interesse de um é diferente da de interesse do outro, os filmes de interesse de um são diferentes dos filmes de interesse do outro, os livros de interesse de um são diferentes dos livros de interesse do outro, etc. Se o pai tiver interesse em videogame ou se estimula atividades esportivas que possam ser realizadas em conjunto, talvez possa haver algum ponto de contato. Mas fora isso, há poucas atividades de lazer com interesse comum entre dois grupos tão distantes. E muitas vezes os únicos momentos de contato acabam sendo as refeições.
Mas aí é que está o ponto: os jogos têm um potencial fantástico para unir os dois grupos. Um potencial que está sendo negligenciado. Se você tomar essa iniciativa, provavelmente seu filho vai apreciar. Vai apreciar passar um momento de lazer com você, vai apreciar a atenção que você está lhe dando e vai apreciar a atividade em si. Por que então isso já não faz parte dos hábitos de qualquer família?
É curioso notar, por exemplo, como as mães costumam dar atenção às crianças pequenas, até quatro ou cinco anos. Elas se dispõem inclusive a sentar com a criança e jogar. Talvez porque acreditem que isso faz parte do seu dever de mãe, que isso estimula a criança e contribui para a sua formação, exercita sua inteligência, etc. Então elas têm muita disposição para ensinar os filhos a jogar o jogo da memória, a montar quebra cabeça... Mas depois disso, adeus jogos. Por quê?
É verdade que muitos dos jogos que estão no mercado não são adequados para promover essa relação. Freqüentemente, eles são jogos longos, o que afugenta os pais. Quando o pai se senta depois do jantar para jogar com o filho, quer um lazer de uma hora, não de três horas. E na sua memória, os jogos duravam horas. Você se lembra do Banco Imobiliário, do War e daquelas partidas intermináveis? É claro que se lembra.
Há jogos que atraem muitos adultos, como Master e Perfil. São jogos de conhecimento com regras muito simples e partidas que não são longas. Mas esses jogos, embora bons para se jogar entre adultos, não preenchem esse espaço. E não o preenchem porque não são capazes de juntar os dois grupos. A razão? A distância natural de nível cultural entre adultos e crianças, o que traz de cara um grande desequilíbrio no jogo: a criança não tem chance de ganhar.
De fato, não há no mercado uma grande oferta de jogos que sejam ao mesmo tempo interessantes para os pais, acessíveis a crianças a partir de 10 anos e com duração adequada ao lazer que se propõe.
Alguns títulos que eu indicaria ao pai que quiser iniciar um processo desses: 1. O clássico Detetive, que também é um jogo que atrai bastante o público feminino; 2. Ponto de Vista, um lançamento recente da Grow muito fácil de aprender e muito divertido; 3. Riquezas do Sultão, recentemente lançado pela Estrela, pelo qual advogo em causa própria, já que sou um dos autores, mas acho realmente que é um bom título para essa situação; 4. Interpol, caso o pai já tenha alguma familiaridade com jogos, pois esse é um pouco mais complexo que os outros e exigirá um pouco mais de dedicação do pai na hora de aprender a jogar.
Já para um pai que tenha poder aquisitivo para comprar jogos importados (o preço aqui pode chegar a 150 reais), o número de jogos que podem preencher essa função é muito grande. Se você está em São Paulo, não deixe de fazer uma visita à Ludus e leve seu filho. Trata-se de um bar de jogos, um local onde você pode se sentar e aprender a jogar uma série de jogos nacionais ou importados, podendo inclusive comprá-los. Nada de carteado, nem de jogo a dinheiro. É um bar onde você pode jogar o que há de mais moderno em jogos de tabuleiro. Se não souber por onde começar, os jogos do ano (premiados com o SDJ, o Oscar dos jogos) costumam ser uma boa referência.
Gostaria de ressaltar ainda que, além da integração familiar, jogar traz uma série de benefícios também para o adulto. É uma atividade intelectual, portanto que exercita o cérebro. Há estudos que mostram que jogar mantém o cérebro ativo. Isto é importante, principalmente após certa idade. Há muitas atividades que podem ter essa função e jogar é uma delas.
Há também um benefício econômico. Geralmente a gente pensa no jogo de tabuleiro como um produto caro, mas isso só enquanto desconsidera o uso que vai ter. Você chega numa loja, vê uma coisa que custa 50 reais, 60 reais, 100 reais, e acha que é uma coisa cara, por definição. Eu também acho caro. Para mim, qualquer coisa nesse valor é cara. Um livro de 100 reais, um vinho de 100 reais, uma calça de 100 reais, uma refeição de 100 reais, acho todos eles caros para se pagar.
Se eu pensar assim, o jogo é caro mesmo. Mas se eu levar em conta que o jogo vai ser jogado vinte ou cinqüenta vezes, que vai proporcionar grande diversão em diversas noites, fins-de-semana, que vai ser levado em viagens, se eu pensar nas horas de lazer, é um lazer muito barato. Um lazer do qual você pode dispor em casa.
Finalmente, um ponto não menos importante: jogar é divertido! Se você tiver o jogo adequado, jogar é divertido. E há jogos que podem proporcionar uma experiência agradável para adultos e crianças na mesma mesa. Isso é algo que os alemães compreendem como ninguém. Li uma vez, numa entrevista do Sid Sakson, algo mais ou menos assim: A Alemanha é o único país em que um pai considera que jogar com seus filhos faz parte de seus deveres. Não é à toa que os melhores jogos estejam vindo de lá. Mas você não precisa estar na Alemanha para sentar com seus filhos à mesa, tirar um jogo do armário e interagir, como pais e filhos deveriam interagir, em qualquer idade.
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