A ONG DOS JOGOS DE TABULEIRO:
POR QUE NÃO
EXISTE?
Um artigo de Sergio
Halaban, escrito com a colaboração de André Zatz

Poderia haver uma ONG cuja atividade estivesse focada na produção, distribuição e divulgação de jogos junto a populações de baixa renda. A bandeira principal dessa ONG seria divulgar a idéia de jogo como instrumento de integração da família. Além disso, grande parte dos jogos de tabuleiro oferecem um estímulo ao desenvolvimento da inteligência. Há ONGs que se ocupam da leitura ou da educação. Por que não uma ONG que se focasse nos jogos?
O potencial que os jogos de mesa têm para agregar a família é fantástico. Como já escrevi em um artigo anterior, os jogos oferecem a oportunidade a pais e filhos de se sentarem juntos e se relacionarem por meio de uma atividade divertida. Num rompante de idealismo, penso que poderia haver uma ONG cuja atividade estivesse focada na produção, distribuição e divulgação de jogos junto a populações de baixa renda.
A bandeira principal dessa ONG seria divulgar a idéia de jogo como instrumento de integração da família. Jogo é uma atividade de lazer inteligente com uma função social.
Apesar dos benefícios que proporciona, o produto jogo é hoje um produto caro para a população de baixo poder aquisitivo. Há opções de jogos a preços populares, mas com freqüência são jogos de qualidade sofrível, que não dão prazer ao se jogar.
Imagine que houvesse um programa ou mesmo uma ONG que se ocupasse de produzir jogos a preços populares com qualidade. Essa entidade estudaria o mercado para encontrar títulos adequados, buscaria quem os pudesse produzir por preços razoáveis e estudaria os caminhos legais para obter algum tipo de isenção de impostos ou subsídio, para que sua meta pudesse ser cumprida: a distribuição em massa de jogos de qualidade.
O MEC, por exemplo, tem programas para a distribuição de tiragens especiais de livros visando à população de baixa renda. Por que não fazer algo similar com jogos? Os jogos podem ser tão interessantes para o estímulo à inteligência e à imaginação quanto os livros. Tendo ainda seu benefício principal, como já dito, na integração familiar.
Há ONGs que se ocupam da leitura ou da educação. Por que não uma ONG que se focasse nos jogos?
Essa ONG poderia pegar um jogo como Ponto de Vista, da Grow, que é divertido e de fácil acesso. Ela procuraria o fabricante e encomendaria uma edição de 10 mil exemplares, por exemplo, com o selo tal e tal, com produção mais barata que a do jogo de linha. Para que a produção seja mesmo mais barata, poderia se mexer em alguns componentes, pedir uma redução no valor já que é uma ação social e contar com isenção de impostos. Os impostos são uma parcela importante do preço dos jogos. Quem sabe assim seria possível fazer um produto com qualidade lúdica, produzido de modo acessível à população que normalmente não poderia comprar um jogo assim.
Essa ONG poderia desenvolver uma série de atividades para a disseminação
do hábito de jogar junto à comunidade. Isso pode ter um valor
social enorme, como ponto de agregação familiar.
Há também a questão da inteligência. Grande parte
dos jogos de tabuleiro oferece um estímulo ao desenvolvimento da inteligência.
Lembro-me de uma advogada amiga nossa comentar que se seus alunos na faculdade
tivessem jogado War quando eram adolescentes, eles saberiam lidar melhor com
uma série de questões, teriam uma capacidade de abstração
que não desenvolveram, capacidade de raciocinar e uma série de
habilidades que você desenvolve na infância e adolescência
brincando. Brincando de várias maneiras, entre elas jogando
Jogar ativa o cérebro, como qualquer outra atividade intelectual. A partir de certa idade é até mais importante. Os jogos ajudam a manter o cérebro trabalhando. Numa matéria recente da Revista Época, foi citado um estudo publicado na revista científica americana The New England Journal of Medecine, segundo o qual pessoas na terceira idade que jogam jogos de tabuleiro como Xadrez, Damas, Scrabble ou jogos de cartas, pelo menos quatro vezes por semana, têm 47% menos risco de desenvolver demência senil que aqueles que se entretêm com esses jogos apenas uma vez por semana. Não significa que os jogos sejam milagrosos. O mesmo estudo citava o benefício de tocar um instrumento musical ou ler. Mas essas atividades já têm quem se preocupe com elas. Os jogos não.
É uma baita de uma bandeira para uma ONG. Tem ONGs que adotaram como bandeira a educação ou a leitura, mas ninguém está pensando no jogo de uma maneira inteligente como ferramenta de educação e socialização.
Só falta alguém que levante essa bandeira e saia fazendo isso. O desafio está lançado. O potencial está aí.
Veja o Quadro
de Avisos
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